Vale de Aosta: a região italiana do Mont Blanc, a pé
O Vale de Aosta é a menor e a mais montanhosa das regiões da Itália, e o vale que corre aos pés dos quatro maciços mais altos do país. O guia do verão: os vales laterais, o Gran Paradiso e os três dias do Tour du Mont Blanc que acontecem aqui dentro.
O Vale de Aosta é a menor e a menos povoada das regiões da Itália, no extremo noroeste do país, e a única cujo território é inteiramente montanhoso. Ela é o vale que corre aos pés dos quatro maciços mais altos da Itália, com o Mont Blanc a oeste, o Cervino e o Monte Rosa a norte e o Gran Paradiso ao sul, e é bilíngue: italiano e francês são as duas línguas oficiais.
Quem procura a região em português encontra estação de esqui e pacote de inverno. Este guia é da outra temporada, quando os vales laterais que saem do vale central viram a rede de trilhas mais densa da Itália, e quando a etapa mais fotografada do Tour du Mont Blanc acontece aqui dentro.
Onde fica, e por que ela é diferente do resto da Itália
O Vale de Aosta encosta nas fronteiras com França e Suíça, e o desenho dela é simples de entender: um vale central, o do rio Dora Baltea, que desce de Courmayeur, a 1.224 metros, até a planície do Piemonte, e uma sequência de vales laterais que sobem dele em direção às montanhas. Aosta, a capital, fica no meio desse eixo, a menos de 600 metros de altitude.
A autonomia e o bilinguismo não são folclore: a região foi savoiarda antes de ser italiana, e o francês continua sendo língua de escola e de placa. Nos vales do Monte Rosa, em Gressoney e no Val d’Ayas, ainda se fala titsch, o dialeto alemão dos Walser que atravessaram os colos no século XIII e nunca voltaram.
Os quatro maciços que cercam o vale

É a concentração de montanha alta que faz a região. Nenhum outro lugar da Itália tem quatro cumes acima de 4.000 metros ao alcance do mesmo vale:
- Mont Blanc, 4.806 m. O teto dos Alpes, visto de frente pelo lado italiano. O acesso é por Courmayeur e pelos dois vales que saem dela, o Val Veny e o Val Ferret.
- Cervino, 4.478 m. O Matterhorn dos suíços, que daqui se vê pela face sul. Sobe-se por Valtournenche até Breuil-Cervinia, no fundo do vale.
- Monte Rosa, mais de 4.600 m. O maciço mais extenso dos Alpes, na fronteira com a Suíça, com os vales de Ayas e Gressoney como porta italiana.
- Gran Paradiso, 4.061 m. O único cume acima de 4.000 metros inteiramente em território italiano, e o coração do parque nacional que leva o nome dele.
Os vales laterais, e o que cada um entrega
Escolher a viagem aqui é escolher o vale. Os dois lados do eixo central têm caráter oposto: o lado norte é o das paredes de fronteira e das estações famosas; o lado sul é o do parque nacional, mais silencioso e com menos estrutura.
- Val Veny e Val Ferret, a partir de Courmayeur: a etapa italiana do Tour du Mont Blanc, com a parede das Grandes Jorasses do outro lado do vale.
- Valpelline e Valtournenche: os vales de fronteira com a Suíça, o segundo terminando de frente para a face italiana do Cervino.
- Val d’Ayas e Valle di Gressoney: os vales Walser, com casas de madeira sobre embasamento de pedra e o circuito do Monte Rosa passando por cima.
- Cogne e o Valnontey: a entrada clássica do Gran Paradiso, e o vale onde a chance de ver íbex e camurça é maior.
- Valsavarenche, Val di Rhêmes e Valgrisenche: os três vales fundos do lado sul, cada vez menos visitados conforme se anda para oeste.
O Parque Nacional do Gran Paradiso
O Gran Paradiso é o primeiro parque nacional da Itália, criado em 1922 a partir da reserva de caça da casa de Savoia. São cerca de 70.000 hectares que vão dos 800 metros do fundo de vale aos 4.061 metros do cume, e ele existe por causa de um animal: o íbex dos Alpes, caçado à beira da extinção em toda a cordilheira, que sobreviveu justamente aqui.
Para quem caminha, é a metade mais tranquila da região. Trilhas de vale e de colo bem marcadas, refúgios espaçados, e um número de visitantes que não se compara ao das Dolomitas nem ao de Chamonix em agosto.
Aosta, a cidade romana no fundo do vale
Aosta foi fundada como Augusta Praetoria em 25 a.C., para guardar as duas passagens alpinas que saem dela, e a cidade romana ainda está de pé: o arco de Augusto, a Porta Praetoria e a fachada do teatro estão no meio do centro, a poucos minutos um do outro. É por isso que ela é chamada de Roma dos Alpes.
É também a base logística óbvia da região: é onde chega o trem, de onde saem os ônibus dos vales laterais, e onde há hotel, mercado e loja de montanha em quantidade. Quem faz base fixa e sai para uma trilha diferente por dia costuma dormir aqui ou em Courmayeur.
Caminhar no Vale de Aosta
Três coisas diferentes cabem na mesma região:
- A etapa italiana do Tour du Mont Blanc. O circuito entra pelo Col de la Seigne, a 2.516 metros, desce o Val Veny até Courmayeur e sobe de novo para atravessar o Val Ferret em meia encosta, de frente para as Grandes Jorasses, até sair pelo Grand Col Ferret, a 2.537 metros, já na Suíça. É o trecho que mais gente fotografa de toda a travessia.
- As travessias próprias da região. O vale central tem duas grandes rotas de alta montanha numeradas, uma por cada encosta, que o percorrem de ponta a ponta em dezenas de etapas. São bem menos conhecidas que o circuito do Mont Blanc, e não têm relação nenhuma com a travessia de mesmo número nas Dolomitas.
- O circuito do Monte Rosa. Cerca de 160 quilômetros em nove a dez dias em volta do maciço, cruzando entre Itália e Suíça pelos colos altos, com os vales Walser como lado italiano.
Fora das travessias, quase todo vale lateral tem uma caminhada de um dia até um lago de altitude ou um colo com vista de fronteira, e a rede de refúgios de montanha permite emendar duas ou três etapas sem montar uma travessia inteira.
O que fazer no verão, além de caminhar
- A Skyway Monte Bianco: de Pontal d’Entrèves ao Pontal Helbronner, a 3.466 metros, em cabines que giram na subida. É alta montanha sem caminhar dias, e é o plano B de um dia de tempo fechado.
- Os castelos: Fénis, Issogne, Verrès e Sarre estão em fila pelo vale central, e o Forte de Bard guarda a entrada da região.
- Comer valdostano: a fontina, os embutidos de altitude, a polenta e a carbonada. É cozinha de montanha, não de cidade.
- Termas de Pré-Saint-Didier: a poucos quilômetros de Courmayeur, é o destino clássico do dia de descanso.
- Ciclismo de estrada: os colos do vale são passagem histórica de corrida, e no verão se enchem de quem sobe por conta própria.
Quando ir
Para caminhar, a janela vai de meados de junho a meados de setembro, com os refúgios abertos e os colos livres de neve a partir de julho. Julho e agosto são o pico, com reserva difícil nos vales famosos; o começo de setembro entrega trilha vazia e luz melhor nas paredes.
O resto do ano a região é esqui, e é essa a versão que aparece na maior parte das buscas em português. Courmayeur, Cervinia e os vales do Monte Rosa são estações grandes, com temporada de dezembro a abril. É outra viagem, com outro preço e outra logística, e não é o assunto deste guia.
Como chegar
As portas de entrada são Turim e Milão, na Itália, e Genebra, na Suíça. De Turim e de Milão são entre duas e três horas por estrada, com trem e ônibus de linha chegando a Aosta. De Genebra, o caminho é pelo túnel do Mont Blanc, cerca de 11,6 quilômetros por dentro da montanha, com ônibus atravessando de Chamonix a Courmayeur em menos de uma hora.
Dentro da região, o carro é conveniência e não necessidade: os vales laterais têm ônibus de temporada, e é assim que se sai da trilha sem fechar o circuito a pé.
E o resto da cordilheira
O Vale de Aosta é uma das portas italianas dos Alpes, não a única. Os Alpes franceses são o outro lado do mesmo maciço do Mont Blanc, e os Alpes suíços ficam do outro lado dos colos a norte. Mais a leste, na mesma Itália, as Dolomitas são outra montanha: calcário vertical em vez de granito e geleira.
Como o Mountain Hut atravessa o Vale de Aosta
Nosso Tour du Mont Blanc são dez dias e nove noites, de Les Houches a Les Houches, e três desses dias acontecem dentro do Vale de Aosta: a descida do Col de la Seigne pelo Val Veny, a parada em Courmayeur no meio do caminho e a travessia do Val Ferret até a fronteira suíça.
É uma travessia auto guiada: você caminha no seu ritmo, com roadbook, mapas e tracks de GPS, e a gente resolve a corrente de reservas dos refúgios, que é a parte que trava quem tenta montar sozinho. Os dias, os desníveis e as datas estão em roteiros do Mountain Hut.
Perguntas frequentes
Onde fica o Vale de Aosta?
No extremo noroeste da Itália, encostado nas fronteiras com França e Suíça. É a menor e a menos povoada das regiões italianas, e a única cujo território é inteiramente montanhoso. O eixo dela é o vale do rio Dora Baltea, que desce de Courmayeur, a 1.224 metros, até a planície do Piemonte, com Aosta no meio, a menos de 600 metros de altitude.
O que fazer no Vale de Aosta no verão?
Caminhar nos vales laterais, que é o que a região tem de mais denso: a etapa italiana do Tour du Mont Blanc a partir de Courmayeur, as trilhas do Parque Nacional do Gran Paradiso e o circuito do Monte Rosa. Fora da trilha: subir a Skyway Monte Bianco até 3.466 metros, visitar os castelos do vale central, as termas de Pré-Saint-Didier, a cidade romana de Aosta e a cozinha valdostana.
Qual a melhor época para visitar o Vale de Aosta?
Para caminhar, de meados de junho a meados de setembro, com os refúgios abertos e os colos livres de neve a partir de julho. Julho e agosto são o pico, com reserva difícil nos vales famosos; o começo de setembro entrega trilha vazia. De dezembro a abril a região é esqui, que é outra viagem.
Por que se fala francês no Vale de Aosta?
Porque a região foi savoiarda antes de ser italiana, e manteve o francês como língua oficial ao lado do italiano. Não é só formalidade: o francês continua sendo língua de escola e de placa. Nos vales do Monte Rosa, em Gressoney e no Val d’Ayas, ainda se fala titsch, o dialeto alemão dos Walser que atravessaram os colos no século XIII.
Como chegar ao Vale de Aosta?
As portas de entrada são Turim e Milão, na Itália, e Genebra, na Suíça. De Turim e de Milão são entre duas e três horas por estrada, com trem e ônibus de linha chegando a Aosta. De Genebra, o caminho é pelo túnel do Mont Blanc, cerca de 11,6 quilômetros, com ônibus atravessando de Chamonix a Courmayeur em menos de uma hora.
O Tour du Mont Blanc passa pelo Vale de Aosta?
Passa, e três dias do circuito acontecem dentro da região. O caminho entra na Itália pelo Col de la Seigne, a 2.516 metros, desce o Val Veny até Courmayeur, atravessa o Val Ferret em meia encosta de frente para as Grandes Jorasses e sai pelo Grand Col Ferret, a 2.537 metros, já na Suíça. É o trecho mais fotografado da travessia.
Vale a pena visitar o Parque Nacional do Gran Paradiso?
Vale, e é a metade mais tranquila da região. É o primeiro parque nacional da Itália, criado em 1922 a partir da reserva de caça da casa de Savoia, com cerca de 70.000 hectares que vão dos 800 metros do fundo de vale aos 4.061 metros do cume. Ele existe por causa do íbex dos Alpes, que foi caçado à beira da extinção na cordilheira e sobreviveu ali.