Tour du Mont Blanc · 15 min de leitura

Tour du Mont Blanc: o roteiro etapa por etapa

O roteiro do TMB nao e uma linha: e uma sequencia de escolhas. Em cinco pontos existe variante alta e baixa, e e ai que a travessia de cada um se decide.

Capa do roteiro do Tour du Mont Blanc, com as 11 etapas do circuito classico, as cinco bifurcacoes que decidem a travessia e os dois colos de fronteira

O Tour du Mont Blanc é uma volta completa ao maciço do Mont Blanc, com cerca de 170 quilômetros e algo perto de 10.000 metros de subida acumulada, percorrida em geral no sentido anti-horário, a partir de Les Houches, atravessando França, Itália e Suíça.

Listar as etapas é o que todo guia faz. O que muda a sua travessia não é a lista: são as cinco bifurcações do circuito, onde existe uma variante alta e uma baixa, e escolher entre elas decide quanta subida você faz e o que você vê. Este texto descreve as etapas e, principalmente, essas escolhas. O panorama geral da travessia está em Tour du Mont Blanc.

O desenho do circuito


O tracado do Tour du Mont Blanc de Les Houches a Les Houches, passando por Les Contamines, o Col de la Seigne a 2.516 m na fronteira italiana, Courmayeur, o Grand Col Ferret a 2.537 m na fronteira suica e o Col de Balme de volta a Franca

O circuito começa e termina no mesmo lugar, e essa é a primeira coisa que o distingue de outras travessias alpinas: não há logística de retorno, porque o último dia entrega você onde o primeiro começou.

Ele se organiza em três blocos, um por país. O trecho francês vai de Les Houches ao Col de la Seigne e é o mais longo. O italiano desce ao Vale de Aosta e sobe de volta pelo Val Ferret, e é o de maior espetáculo. O suíço atravessa vales verdes e vilarejos de madeira até o Col de Balme, que devolve a travessia à França.

Vale registrar uma diferença de caráter entre os três blocos, porque ela muda o que se leva na mochila e o que se espera do dia. O trecho francês é o de maior desnível concentrado e o de terreno mais exposto ao vento nos colos. O italiano é o mais quente e o de melhor infraestrutura, com uma cidade no meio do caminho. O suíço é o mais úmido e o mais florestal, com etapas de perfil suave e vilarejos frequentes.

O ponto mais alto do traçado clássico é o Grand Col Ferret, a 2.537 metros, e o circuito não passa de 2.700 em nenhuma das variantes usuais. Isso importa porque mantém a travessia inteira abaixo da faixa em que a altitude costuma cobrar caro de quem vem do nível do mar, e é uma das razões pelas quais ela é acessível a quem nunca caminhou nos Alpes.

Etapa por etapa

Os números abaixo são de referência e variam entre guias, porque cada fonte mede a partir de pontos ligeiramente diferentes e porque as variantes mudam a conta. Use-os como ordem de grandeza.

1. Les Houches a Les Contamines

Cerca de 18 a 20 km. A primeira bifurcação aparece logo: pelo Col de Voza, mais suave e direto, ou pelo Col du Tricot, que sobe mais e cruza uma ponte suspensa sob a geleira de Bionnassay. A variante alta custa uns 400 metros extras de subida e entrega o primeiro contato de perto com gelo. Costuma render de 5 a 7 horas de caminhada, e a noite é em Les Contamines, um vilarejo de vale com oferta ampla de casas e o último supermercado de porte antes de dias de montanha.

2. Les Contamines a Les Chapieux

Cerca de 18 km e 1.300 metros de subida, a maior jornada de desnível do circuito. Sobe-se ao Col du Bonhomme e em seguida ao Col de la Croix du Bonhomme, num terreno alto e exposto ao vento. Aqui está a segunda bifurcação: o Col des Fours, mais alto, é a alternativa para quem quer altitude e encontra o colo livre de neve. São de 6 a 8 horas, e o pernoite é em Les Chapieux, um povoado minúsculo de fundo de vale com pouquíssimos leitos. É um dos gargalos de reserva do circuito.

3. Les Chapieux ao vale italiano

Cerca de 15 a 18 km. É a etapa da primeira fronteira: o Col de la Seigne, a 2.516 metros, onde se entra na Itália e o Mont Blanc aparece pela vertente sul, de frente e sem anteparo. Muita gente descreve esse momento como o ponto alto da travessia inteira. São de 5 a 7 horas. A noite costuma ser num refúgio alto logo depois do colo, já em território italiano, ou mais abaixo no Val Veny para quem prefere encurtar o dia seguinte.

4. Descida a Courmayeur

Cerca de 14 a 18 km, com pouca subida e muita descida. O caminho acompanha o Val Veny com a vertente italiana do maciço sempre à esquerda, e termina em Courmayeur, que é a única cidade de porte do circuito e o melhor ponto para uma noite de descanso. São de 4 a 6 horas, e é a etapa mais curta em esforço. Courmayeur tem hospedagem de todos os tipos, farmácia e loja de equipamento, o que faz dela o ponto natural para resolver qualquer pendência.

5. Courmayeur ao Val Ferret italiano

Cerca de 12 a 14 km, com 1.000 a 1.200 metros de subida logo na saída. É a terceira bifurcação: a via baixa segue pelo fundo do vale, e a alta sobe ao Mont de la Saxe, que devolve, num dia inteiro de varanda, a vista frontal das Grandes Jorasses. Quando o tempo permite, é a variante que mais compensa do circuito. São de 5 a 7 horas pela via alta. A noite é num dos refúgios de encosta do Val Ferret italiano, que estão entre os mais procurados da travessia e esgotam cedo.

6. Travessia para a Suíça

Cerca de 18 a 20 km. Sobe-se ao Grand Col Ferret, a 2.537 metros, a segunda fronteira e o ponto mais alto do traçado clássico. A partir dali a paisagem muda de caráter em poucas horas: sai a alta montanha de granito e geleira, entra o verde suíço. São de 6 a 8 horas. O pernoite costuma ser em La Fouly, o primeiro vilarejo suíço do caminho, pequeno e tranquilo.

7. Descida do Val Ferret suíço

Cerca de 14 a 16 km, sem colo alto. É a etapa mais fácil e a mais frequentemente encurtada por transfer nos programas de 7 a 8 dias, justamente por render pouco em paisagem e bastante em quilometragem. São de 4 a 6 horas, e a noite é em Champex-Lac, um vilarejo à beira de um lago que costuma ser lembrado como a parada mais agradável do trecho suíço.

8. Passagem para o vale de Trient

Cerca de 15 a 17 km. Aqui está a quarta bifurcação, e a mais marcante: a via Bovine, pastoril e coberta de floresta, ou a Fenêtre d’Arpette, a 2.665 metros, num circo rochoso com vista para a geleira do Trient. A Arpette é o dia mais duro do circuito para quem a escolhe, e o mais lembrado. Pela Bovine são de 5 a 7 horas; pela Arpette, de 7 a 9. Dorme-se em Trient ou no colo logo acima, os dois com poucos leitos.

9. Volta à França

Cerca de 13 a 15 km, com subida ao Col de Balme, onde a fronteira devolve a travessia à França e o vale de Chamonix se abre de uma vez, com o maciço inteiro no fundo. É uma das chegadas mais cinematográficas do caminho. São de 4 a 6 horas, e o pernoite é na parte alta do vale de Chamonix, perto de Argentière, já em ambiente de cidade de montanha.

10. A varanda de Chamonix

Cerca de 12 a 14 km. A quinta bifurcação: seguir pela varanda baixa ou subir ao Lac Blanc, com o lago refletindo a face norte do maciço. A subida ao Lac Blanc inclui trechos com escadas metálicas fixas, o que assusta mais do que exige; o que esperar desse tipo de passagem está em via ferrata. São de 5 a 7 horas, e a noite é num refúgio de varanda com vista frontal para o maciço, ou no vale para quem prefere descer.

11. Fechamento em Les Houches

Cerca de 16 a 18 km, passando pelo Brévent, o mirante que fecha a volta com o Mont Blanc de frente pela última vez. A descida a Les Houches é longa e costuma ser encurtada por teleférico, sem prejuízo nenhum ao circuito. São de 6 a 8 horas com a descida inteira a pé, e bem menos com o teleférico. É o dia em que a travessia termina onde começou.

As cinco bifurcações, lado a lado

Esta é a tabela que resume a decisão real do roteiro. A variante alta sempre cobra desnível e sempre entrega vista.

Etapa Via normal Variante alta O que ela cobra
1 Col de Voza Col du Tricot ≈400 m extras e uma ponte suspensa
2 Col de la Croix du Bonhomme Col des Fours terreno alto, neve residual até tarde
5 fundo do Val Ferret Mont de la Saxe ≈700 m extras, e a melhor vista do circuito
8 via Bovine Fenêtre d’Arpette ≈600 m extras e o dia mais duro
10 varanda baixa Lac Blanc subida extra e escadas fixas

Duas dessas cinco merecem comentário próprio, porque são as que mais dividem opinião entre quem já fez o circuito.

A Fenêtre d’Arpette é a mais dura do conjunto e a que tem pior relação entre esforço e garantia: em dia fechado, o circo rochoso que justifica a subida não aparece, e o caminhante paga o preço inteiro sem receber nada. Pela Bovine, o dia é tranquilo e a floresta protege do tempo. É a bifurcação em que mais vale decidir na véspera, olhando a previsão.

O Mont de la Saxe é o oposto: exige bastante, mas o retorno é praticamente garantido em qualquer dia de visibilidade razoável, porque a vista é lateral e contínua, não depende de um ponto específico. Se houver uma única variante alta a escolher na travessia inteira, a maioria de quem já caminhou o circuito indica esta.

Uma regra prática vale mais que a tabela: nenhuma variante alta deve ser decidida com meses de antecedência. Elas dependem de neve residual e de tempo do dia, e a informação confiável está com o refúgio da noite anterior, que sabe o que aconteceu naquele trecho nos últimos dias.

O que se pode pular, e o que não

Nem todo quilômetro do circuito rende igual, e encurtar com critério é diferente de encurtar por acaso.

  • Pode pular: a descida final a Les Houches, o fundo do Val Ferret suíço e os trechos de aproximação dentro do vale de Chamonix. São transições, não paisagem.
  • Não pule: os dois colos de fronteira. O Col de la Seigne e o Grand Col Ferret são o que faz do TMB uma travessia de três países; sem eles, o circuito vira uma sequência de caminhadas na mesma região.
  • Pense duas vezes: o trecho do Mont de la Saxe. É o único ponto do caminho em que se anda um dia inteiro com o maciço de frente.

Há também uma decisão menos discutida e igualmente relevante: onde dormir alto e onde dormir no vale. Refúgio de encosta entrega a noite em plena montanha, com o nascer do sol na parede em frente, e cobra menos conforto e menos chuveiro. Casa de vilarejo entrega descanso melhor e custa uma subida extra no dia seguinte. A maioria dos roteiros alterna os dois de propósito, e não por acaso. A mecânica de como uma casa de etapa funciona está em refúgios nos Alpes, e a corrente de reservas específica deste circuito está em os refúgios do TMB.

Onde o circuito encontra estrada

Saber disso muda o planejamento de quem monta versão curta, e é a informação de segurança mais útil do roteiro. O circuito toca estrada em pontos regulares: Les Houches, Les Contamines, Les Chapieux, Courmayeur, o Val Ferret suíço, Champex, Trient e o vale de Chamonix.

Na prática, isso significa que nunca se está a mais de um dia de caminhada de um ponto com transporte. Em caso de tempo ruim, lesão ou simples mudança de plano, existe saída sem improviso, e essa é uma das razões pelas quais o TMB é a travessia alpina mais recomendada para uma primeira vez.

Em que sentido percorrer

A grande maioria faz anti-horário, e não é tradição: é o sentido que põe o sol nas costas nas subidas da manhã, deixa o maciço de frente no trecho italiano e casa com o fluxo dos refúgios e dos transfers. O sentido horário é defensável para quem quer encontrar menos gente, ao custo de transformar os colos mais duros em descidas longas. O detalhamento dessa escolha está em em que sentido fazer a travessia.

Há um efeito prático do sentido que quase não se menciona: percorrendo anti-horário, você cruza o dia inteiro com quem vem no sentido oposto, e essa troca de informação sobre o trecho à frente é uma das fontes mais úteis de que se dispõe em rota. No sentido horário, essa troca é constante e o isolamento entre grupos é maior.

Quanto tempo isso leva

São 11 dias de caminhada no circuito completo, cerca de 7 a 8 na versão que a maioria dos programas percorre, e 5 no recorte franco-italiano. Somando chegada, deslocamento e uma margem para mau tempo, o circuito completo pede de 15 a 16 dias de viagem. A comparação entre os três formatos está em quantos dias leva a travessia.

Como a Mountain Hut percorre o circuito

Nossa travessia são 10 dias e 9 noites, de Les Houches a Les Houches, no sentido anti-horário e com as duas fronteiras a pé. Montamos a corrente de reservas dos refúgios, o transporte da bagagem principal entre as etapas e o briefing de saída com roadbook, mapas e tracks, e as decisões de variante em rota continuam sendo suas, tomadas com a informação do dia.

O detalhamento dia a dia e as datas estão em o nosso Tour du Mont Blanc. Para comparar com a outra travessia que operamos, o caminho é roteiros do Mountain Hut.

Perguntas frequentes

Quantas etapas tem o Tour du Mont Blanc?

O circuito clássico tem 11 etapas, saindo de Les Houches e voltando a Les Houches pela volta completa ao maciço. São cerca de 170 quilômetros e algo perto de 10.000 metros de subida acumulada, atravessando França, Itália e Suíça a pé, com dois colos de fronteira acima de 2.500 metros.

Quais são as bifurcações do Tour du Mont Blanc?

São cinco pontos com variante alta e baixa: Col de Voza ou Col du Tricot na primeira etapa; Col de la Croix du Bonhomme ou Col des Fours na segunda; fundo do Val Ferret ou Mont de la Saxe na quinta; via Bovine ou Fenêtre d’Arpette na oitava; e varanda baixa ou Lac Blanc na décima. A variante alta sempre cobra desnível e sempre entrega vista.

Qual é o ponto mais alto do Tour du Mont Blanc?

O Grand Col Ferret, a 2.537 metros, na fronteira entre Itália e Suíça. O circuito não passa de 2.700 metros em nenhuma das variantes usuais, o que mantém a travessia inteira abaixo da faixa em que a altitude costuma cobrar caro de quem vem do nível do mar.

Qual variante vale mais a pena no Tour du Mont Blanc?

O Mont de la Saxe, na quinta etapa, é a mais indicada por quem já percorreu o circuito. Ela exige cerca de 700 metros extras de subida, mas o retorno é praticamente garantido em qualquer dia de visibilidade razoável, porque a vista das Grandes Jorasses é lateral e contínua, e não depende de um ponto específico.

Vale a pena subir a Fenêtre d’Arpette?

É a variante mais dura do circuito e a de pior relação entre esforço e garantia. Em dia fechado, o circo rochoso que justifica a subida não aparece e o caminhante paga o preço inteiro sem receber nada. Pela via Bovine o dia é tranquilo e a floresta protege do tempo. É a bifurcação em que mais vale decidir na véspera, olhando a previsão.

Quando decidir entre a variante alta e a baixa?

Na véspera, nunca com meses de antecedência. As variantes altas dependem de neve residual e do tempo do dia, e a informação confiável está com o refúgio da noite anterior, que sabe o que aconteceu naquele trecho nos últimos dias. Montar o roteiro com plano A e plano B para cada bifurcação vale mais que tentar acertar tudo antes.

Que trechos do Tour du Mont Blanc podem ser pulados?

A descida final a Les Houches, o fundo do Val Ferret suíço e os trechos de aproximação dentro do vale de Chamonix, que são transições e não paisagem. O que não se pula são os dois colos de fronteira, o Col de la Seigne e o Grand Col Ferret: sem eles o circuito deixa de ser uma travessia de três países.

O Tour du Mont Blanc passa por estrada em algum ponto?

Sim, em pontos regulares: Les Houches, Les Contamines, Les Chapieux, Courmayeur, o Val Ferret suíço, Champex, Trient e o vale de Chamonix. Nunca se está a mais de um dia de caminhada de um ponto com transporte, o que significa saída sem improviso em caso de tempo ruim ou lesão.

Onde se dorme durante o Tour du Mont Blanc?

Numa corrente de casas de etapa, uma por noite, alternando refúgios de encosta e casas de vilarejo. O refúgio alto entrega a noite em plena montanha e cobra menos conforto; a casa de vale entrega descanso melhor e custa uma subida extra no dia seguinte. Les Chapieux e os refúgios do Val Ferret italiano são os gargalos de reserva.

Em que sentido percorrer o Tour du Mont Blanc?

A grande maioria faz anti-horário, e não é tradição: é o sentido que põe o sol nas costas nas subidas da manhã, deixa o maciço de frente no trecho italiano e casa com o fluxo dos refúgios e dos transfers. O sentido horário é defensável para quem quer encontrar menos gente, ao custo de transformar os colos mais duros em descidas longas.

Continue lendo

Artigos relacionados

Planeje sua travessia

Sua próxima travessia nos Alpes começa com uma conversa.

Roteiro, refúgios e logística montados com quem já andou a trilha.

Fale conosco