Preparo · 9 min de leitura

Treino para trekking: como se preparar para uma travessia alpina

O que uma travessia alpina cobra do corpo, os três erros de quem treina só o fôlego, um plano de doze semanas em quatro blocos e o teste de fim de semana que responde se você está pronto.

Treino para trekking: como se preparar para uma travessia alpina. Capa sobre foto de caminhantes numa trilha dos Alpes, com 12 semanas de plano, 5 a 7 horas de caminhada por dia, mil metros de subida e o teste de dois dias

Treino para trekking é diferente de treino para corrida ou de academia por três motivos que quase nenhum plano genérico cobre: a montanha exige descida, exige carga nas costas e exige dias seguidos. Quem chega a uma travessia alpina tendo treinado só o fôlego costuma passar bem no primeiro dia, sofrer no terceiro e terminar com o joelho falando mais alto que as pernas.

Este guia é o que a gente diria a quem vai caminhar dez dias nos Alpes: o que a travessia realmente cobra do corpo, um plano de doze semanas em quatro blocos, como treinar descida e carga sem ter montanha por perto, e um teste simples de fim de semana que responde de verdade se você está pronto.

Uma ressalva antes de começar: o que vem abaixo é orientação geral de preparo, construída na prática de quem organiza travessias, e não prescrição de treino. Se você tem histórico de lesão, dor articular ou qualquer condição de saúde, procure avaliação médica e acompanhamento de um profissional de educação física para montar o seu plano.

O que uma travessia alpina exige de verdade

Números ajudam mais que adjetivos. O Tour du Mont Blanc são cerca de 170 km e algo perto de 10.000 metros de subida acumulada, distribuídos em dez dias: os dias variam de 14 a 20 km, com desníveis positivos que vão de 500 a 1.300 metros. A Alta Via 1, nas Dolomitas, são 120 a 135 km e de 7.000 a 8.000 metros de subida em nove dias, com um primeiro dia que já sobe mil metros saindo do Lago di Braies.

Traduzindo para o corpo: um dia médio de travessia são de cinco a sete horas de caminhada, com uma subida equivalente a algo entre 200 e 400 andares de escada, seguida de uma descida do mesmo tamanho, com peso nas costas, e no dia seguinte tudo de novo. Não é intensidade alta. É volume, repetição e um tipo de esforço que o corpo urbano não conhece.

Os três erros de quem treina para trekking

  • Treinar só cardio. Esteira e bicicleta melhoram o fôlego, e fôlego raramente é o que interrompe uma travessia. O que interrompe é força de pernas para aguentar horas de degrau e de descida. Caminhada em plano, por mais longa, não prepara para isso.
  • Ignorar a descida. A subida cansa; a descida machuca. É na descida que o quadríceps trabalha em contração excêntrica, freando o corpo a cada passo, e é ela que produz a dor muscular tardia, o joelho inflamado e o dedo do pé sofrido na bota. Quem só treina subindo chega despreparado para metade do dia.
  • Nunca treinar com mochila. Carregar seis a oito quilos muda o centro de gravidade, o apoio do pé e a pressão no ombro. Isso se aprende carregando, e não lendo. A primeira vez que você anda quatro horas com mochila cheia não pode ser no primeiro dia da viagem.

Um plano de doze semanas em quatro blocos


Plano de treino de doze semanas dividido em quatro blocos: base nas semanas 1 a 3, treino específico com desnível nas semanas 4 a 6, carga com mochila nas semanas 7 a 9 e pico com afunilamento nas semanas 10 a 12, mais o teste de dois dias seguidos de caminhada

Doze semanas é o prazo confortável para quem já tem alguma atividade física regular. Quem parte do sedentarismo deve pensar em algo mais longo, de quatro a seis meses, e com acompanhamento. A lógica dos blocos é simples: primeiro criar base, depois virar a chave para o esforço específico da montanha e, no fim, ensaiar a travessia.

  • Semanas 1 a 3, base: constância acima de tudo. Caminhadas regulares, começando pelo que você já aguenta e crescendo aos poucos, mais dois dias de fortalecimento de pernas, quadril e core. Aqui o objetivo é criar o hábito e acostumar tendões e articulações, não bater recorde.
  • Semanas 4 a 6, específico: entra o desnível. Trocar parte da caminhada plana por ladeira, escada ou trilha de verdade, e começar a incluir descida de propósito, não só como volta para casa. É o bloco que mais muda o resultado final.
  • Semanas 7 a 9, carga: a mochila entra em cena e vai ganhando peso até chegar ao que você vai levar na viagem. As saídas ficam mais longas, com a bota que você vai usar nos pés, para amaciar o par e descobrir pontos de atrito antes que seja tarde.
  • Semanas 10 a 12, pico e afunilamento: o pico é um fim de semana com dois dias seguidos de caminhada longa, com mochila. Depois dele, reduza volume na última semana e chegue descansado. Ninguém melhora nos sete dias antes da viagem, mas dá para chegar cansado.

Como treinar a descida

A descida é a parte mais negligenciada e a que mais devolve resultado. A adaptação do músculo ao trabalho excêntrico é específica e leva semanas: não há atalho, e ela não vem de bicicleta, natação ou musculação sozinha.

Na prática: procure ladeiras e escadas e desça caminhando, com passo curto e controlado, sem se jogar. Se puder, faça repetições, subindo e descendo o mesmo trecho. Bastões de caminhada ajudam muito na trilha e vale treinar com eles antes, porque usar bastão também é técnica. E fortalecimento de quadríceps, glúteo e panturrilha na academia é excelente complemento, contanto que não substitua o tempo de descida real.

Treinar sem montanha por perto

A maior parte de quem vai para os Alpes mora em cidade plana. Dá para chegar bem preparado, desde que se aceite trocar montanha por repetição:

  • Escada de prédio: o melhor substituto disponível. Subir e descer lances repetidos, com mochila, reproduz razoavelmente o desnível de um dia de trilha. Vinte andares repetidos algumas vezes já são centenas de metros de desnível.
  • Esteira inclinada: resolve a subida, mas não a descida. Serve para volume, não para adaptar o joelho.
  • Ladeiras do bairro e viadutos: qualquer inclinação repetida vale mais do que quilômetro plano.
  • Trilha no fim de semana: uma saída mensal a um parque ou serra próxima vale por várias sessões urbanas, porque traz terreno irregular, pedra solta e raiz, que é onde o tornozelo aprende.

O teste que diz se você está pronto

Um único teste responde com honestidade: escolha um fim de semana, monte a mochila com o peso da viagem, e caminhe cinco horas no sábado e mais quatro ou cinco no domingo, de preferência com subida e descida. Se no domingo você acorda dolorido mas consegue repetir a dose, e termina o dia sem dor articular, você está no caminho.

Se o domingo for impossível, a informação é ouro: numa travessia, o domingo se repete por mais uma semana. Ainda dá tempo de ajustar o plano, aliviar peso, revisar bota ou escolher um roteiro mais curto.

O que não é treino, é logística

Metade dos problemas que a gente vê em trilha não é condicionamento. É bota nova estreando no primeiro dia, mochila mal regulada apoiando no ombro em vez do quadril, meia de algodão que guarda umidade e a mochila pesada demais porque entrou coisa que não seria usada. Isso se resolve antes, e faz mais diferença do que uma semana extra de treino: veja o checklist do que levar em um trekking e, para a preparação prática dos dias na montanha, o guia de como se preparar para uma trilha de vários dias.

Vale um ponto sobre peso, que muda de roteiro para roteiro: no nosso Tour du Mont Blanc a bagagem principal é transportada entre as etapas, então você caminha com uma mochila de dia. Na Alta Via 1 você carrega o que leva, o que torna a disciplina de peso parte do preparo.

Como o Mountain Hut organiza a travessia para a qual você está treinando

Nossas travessias são auto guiadas: você caminha no seu ritmo, e as decisões em rota são suas. A gente resolve a hospedagem de refúgio em refúgio, a logística e o roadbook, e você chega sabendo exatamente o que cada dia pede, o que ajuda a treinar com alvo em vez de treinar no escuro.

Se quiser ver os dias, os desníveis e as datas de cada roteiro, eles estão em roteiros do Mountain Hut.

Perguntas frequentes

Quanto tempo antes preciso treinar para um trekking de vários dias?

Doze semanas é um prazo confortável para quem já tem atividade física regular, divididas em quatro blocos: base, treino específico com desnível, carga com mochila e pico com afunilamento. Quem parte do sedentarismo deve pensar em quatro a seis meses, com acompanhamento profissional.

Quantos quilômetros por dia se caminha numa travessia alpina?

Entre 14 e 20 quilômetros por dia, com desnível positivo de 500 a 1.300 metros e cinco a sete horas de caminhada. No Tour du Mont Blanc são cerca de 170 km em dez dias; na Alta Via 1, de 120 a 135 km em nove dias.

Preciso ser atleta para fazer o Tour du Mont Blanc ou a Alta Via 1?

Não. Não é um esforço de alta intensidade, é de volume e repetição: caminhar muitas horas, subir e descer com peso e repetir no dia seguinte. O que decide não é desempenho atlético, é preparo específico de descida, carga e dias consecutivos.

Como treinar para trekking sem morar perto de montanha?

Escada de prédio é o melhor substituto, porque reproduz subida e descida com repetição. Ladeiras e viadutos do bairro valem mais que quilômetro plano, e a esteira inclinada resolve a subida mas não a descida. Uma saída mensal a uma trilha de verdade completa o preparo, pelo terreno irregular.

Por que a descida machuca mais que a subida?

Na descida o quadríceps trabalha em contração excêntrica, freando o corpo a cada passo. É esse trabalho que produz dor muscular tardia, sobrecarga no joelho e desconforto nos dedos dentro da bota. A adaptação a ele é específica e leva semanas de treino de descida.

Quanto peso vou carregar na mochila?

Depende do roteiro. No Tour du Mont Blanc do Mountain Hut a bagagem principal é transportada entre as etapas e você caminha com uma mochila de dia. Na Alta Via 1 você carrega o que leva, o que costuma significar algo entre seis e oito quilos com água.

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