Alpes franceses: os maciços, as cidades-base e o verão a pé
Os Alpes franceses não são um lugar, são maciços: Mont Blanc, Aravis, Vanoise, Écrins e os pré-Alpes de Grenoble. O guia da temporada de verão, quando a neve sai e a montanha vira trilha.
Os Alpes franceses são o trecho francês da cordilheira alpina, que se estende do lago Léman, na fronteira com a Suíça, até quase o Mediterrâneo, cobrindo os departamentos da Alta Saboia, Saboia, Isère e Altos Alpes. É onde fica o Mont Blanc, o ponto mais alto dos Alpes, com quase 4.800 metros, e onde nasceu boa parte da cultura de montanha europeia.
Só que “Alpes franceses” não é um lugar: são vários maciços, cada um com seu caráter e seu vale de acesso. E há uma coisa que quase todo conteúdo em português sobre a região deixa de fora: eles têm duas temporadas, e a que o brasileiro conhece é a do esqui. Este guia é sobre a outra, a do verão, quando a neve sai das trilhas e a montanha vira o maior parque de caminhada da Europa.
Os maciços que importam para quem caminha

- Maciço do Mont Blanc: o mais famoso e o mais alto, na fronteira com Itália e Suíça. Geleiras, agulhas de granito e o circuito de caminhada mais conhecido do mundo. Vale-base: Chamonix.
- Aravis: montanhas calcárias mais baixas e pastoris, a meio caminho entre o lago de Annecy e o Mont Blanc. Caminhada suave, queijo de altitude e vista para o maciço vizinho. Vale-base: Annecy e La Clusaz.
- Vanoise: primeiro parque nacional da França, com vales altos, lagos e uma das melhores redes de refúgios do país. É o coração da caminhada de vários dias na Saboia.
- Écrins: alto, austero e menos visitado, com cumes que passam dos 4.000 metros. Terreno mais selvagem, para quem já caminhou em montanha.
- Chartreuse, Belledonne e Vercors: os maciços de pré-Alpes em volta de Grenoble, ótimos para caminhadas de um dia e para começar a temporada, porque abrem antes das cotas altas.
As cidades-base
Chamonix é a capital do alpinismo e a base natural do maciço do Mont Blanc, com teleféricos que levam a altitudes que exigiriam dias de escalada e uma concentração de lojas de montanha difícil de encontrar em outro lugar. O guia completo do vale está em Chamonix.
Annecy é a cidade do lago, no sopé dos Aravis, e a porta mais fácil para quem quer misturar montanha com verão de água. Grenoble é a base dos maciços do sul, cercada por três deles, e a mais urbana das três. Albertville e os vales da Tarentaise dão acesso à Vanoise e às estações que, no inverno, formam alguns dos maiores domínios esquiáveis do mundo.
Verão e inverno: as duas temporadas
Esta é a distinção que muda a viagem. De dezembro a abril, os Alpes franceses são a maior região de esqui do planeta, e é essa a versão que aparece em quase toda busca em português: estações, chalés, forfait, aula de esqui.
De meados de junho a meados de setembro, tudo isso fecha e outra coisa abre. A neve sai das trilhas até cotas altas, os refúgios de montanha começam a funcionar com meia-pensão, os teleféricos que sobrevivem ao verão viram atalho para caminhada e as vacas sobem para os pastos de altitude. É a temporada da caminhada, e ela é curta: em maio ainda há neve nos colos, e no fim de setembro os refúgios começam a fechar.
Quem viaja no verão descobre uma diferença prática: as vilas de esqui, feias e vazias fora de temporada, são só o ponto de partida. A montanha do verão acontece acima delas, nos colos e nos refúgios, e é outra paisagem.
O que fazer no verão, além de caminhar
A caminhada é o eixo, mas não é a única coisa que a montanha oferece quando a neve sai:
- Subir de teleférico: parte dos equipamentos de esqui funciona no verão e leva a mirantes altos em minutos. É o que torna a alta montanha acessível a quem não caminha, e o atalho de quem caminha.
- Lagos: o lago de Annecy é o mais conhecido e tem praia, ciclovia e vilarejos na margem. Nas cotas altas, os lagos de altitude são o destino clássico de uma caminhada de meio dia.
- Ciclismo: os colos dos Alpes franceses são o palco histórico do Tour de France, e no verão eles se enchem de ciclistas subindo por conta própria.
- Via ferrata: percursos equipados com cabo de aço e degraus, que dão a sensação de escalada com segurança de equipamento, sempre com material e instrução adequados.
- Vilarejos e comida: queijos de altitude, mercados de vale e vilarejos de pedra e madeira que continuam de pé fora da temporada de esqui.
As grandes travessias a pé
A caminhada francesa é organizada em torno dos GR, as Grandes Randonnées, trilhas de longa distância marcadas com traços branco e vermelho e servidas por refúgios e alojamentos. O GR5 atravessa os Alpes inteiros, do lago Léman até o Mediterrâneo, e é a espinha dorsal dessa rede.
A travessia mais conhecida, no entanto, dá a volta em uma montanha só: o Tour du Mont Blanc, cerca de 170 quilômetros e 10.000 metros de subida acumulada em dez dias, contornando o maciço por França, Itália e Suíça. Começa e termina em Les Houches, a poucos quilômetros de Chamonix, e é o roteiro que melhor apresenta os Alpes franceses a quem chega de fora: em um único circuito você atravessa três países, dorme em refúgio, cruza colos acima de 2.500 metros e volta pelo mirante do Lac Blanc.
Dormir em refúgio
É o que separa a viagem de montanha da viagem de cidade com vista para montanha. O refúgio francês, o refuge, é uma casa em altitude que serve jantar e café da manhã em horário fixo, tem dormitório coletivo e existe para abrigar quem caminha. Reserva-se com antecedência, leva-se saco-lençol e dinheiro em espécie, e janta-se em mesa comprida com gente de vários países.
É também o que torna possível caminhar por dias sem carregar barraca nem comida: você anda de casa em casa, com o essencial nas costas. Toda a lógica das travessias alpinas vem daí.
Como chegar
As portas de entrada são Genebra, na Suíça, e Lyon. Genebra é a mais prática para o maciço do Mont Blanc, a cerca de 90 quilômetros de Chamonix, com traslado rodoviário de pouco mais de uma hora. Lyon serve bem os maciços do sul e Grenoble. De Paris, o trem de alta velocidade leva a Genebra, Annecy, Chambéry e Grenoble em algumas horas, e dali os vales são servidos por trem regional e ônibus.
Uma vez na região, carro é conveniência, não necessidade: os vales com travessia clássica têm transporte público de temporada, e a hospedagem costuma dar direito ao passe local.
Quando ir e quanto tempo ficar
A janela é curta e vale respeitá-la. Julho e agosto são o auge: tudo aberto, dias longos, e também o maior movimento e os preços mais altos. O começo de setembro costuma ser a melhor troca, com trilha vazia, luz mais bonita e temperatura confortável, desde que se confira a data de fechamento dos refúgios. Já a segunda metade de junho é bonita e verde, mas ainda pode ter neve nos colos altos.
Sobre duração: para conhecer um maciço sem correr, conte de quatro a cinco dias em um vale-base, com caminhadas de um dia saindo dali. Para uma travessia completa, como o circuito do Mont Blanc, o roteiro pede de dez a onze dias, somando o dia de chegada. E vale a regra de ouro de quem vem de longe: chegue com um dia de folga antes de sair na trilha, porque voo atrasado e mala extraviada são o problema mais comum de quem cruza o Atlântico.
E os outros Alpes
Vale saber o que está do outro lado antes de decidir. Os Alpes italianos entregam uma montanha diferente na mesma cordilheira: as Dolomitas, com torres e paredes verticais de calcário, atravessadas de norte a sul pela Alta Via 1. Os Alpes suíços são mais caros e mais organizados, com trem chegando alto. São três viagens distintas, e não três versões da mesma.
Como o Mountain Hut organiza uma travessia nos Alpes franceses
Nosso Tour du Mont Blanc são dez dias e nove noites, de Les Houches a Les Houches, com briefing de saída em Chamonix, hospedagem encadeada e transporte de bagagem entre as etapas, o que deixa você caminhando com mochila de dia. É uma travessia auto guiada: você caminha no seu ritmo, com roadbook, mapas e tracks de GPS, e as decisões em rota são suas.
Se quiser ver os dias, os desníveis e as datas, os roteiros estão em roteiros do Mountain Hut.
Perguntas frequentes
Onde ficam os Alpes franceses?
É o trecho francês da cordilheira alpina, que vai do lago Léman, na fronteira com a Suíça, até quase o Mediterrâneo, pelos departamentos da Alta Saboia, Saboia, Isère e Altos Alpes. É onde fica o Mont Blanc, o ponto mais alto dos Alpes, com quase 4.800 metros.
Qual a melhor época para visitar os Alpes franceses?
Depende do que você quer. Para caminhar, de meados de junho a meados de setembro, quando a neve sai das trilhas e os refúgios abrem. Julho e agosto são o auge do movimento; o começo de setembro entrega trilha vazia e luz melhor. De dezembro a abril, a região é uma das maiores áreas de esqui do mundo, com as trilhas de altitude inacessíveis.
O que fazer nos Alpes franceses no verão?
Caminhar é o eixo, das trilhas de um dia às travessias de refúgio em refúgio. Além disso: subir de teleférico aos mirantes altos, os lagos de altitude e o lago de Annecy, o ciclismo pelos colos do Tour de France, as vias ferratas e os vilarejos de pedra e madeira com queijo de altitude.
Quais são as principais cidades dos Alpes franceses?
Chamonix, base do maciço do Mont Blanc e capital do alpinismo; Annecy, no lago, aos pés dos Aravis; Grenoble, cercada pelos maciços do sul; e Albertville com os vales da Tarentaise, porta da Vanoise.
Como chegar aos Alpes franceses saindo de Paris?
De trem de alta velocidade até Genebra, Annecy, Chambéry ou Grenoble, em algumas horas, e dali por trem regional e ônibus até os vales. Vindo do Brasil, as portas de entrada práticas são Genebra, a cerca de 90 quilômetros de Chamonix, e Lyon, mais conveniente para os maciços do sul.
Dá para caminhar nos Alpes franceses sem experiência?
Dá. Há caminhadas de meio dia a partir dos teleféricos e trilhas de vale acessíveis a qualquer pessoa com disposição. Para travessias de vários dias, o que se pede é preparo específico de descida, carga e dias consecutivos, e não desempenho atlético.
Qual a diferença entre os Alpes franceses, italianos e suíços?
São montanhas diferentes na mesma cordilheira. O lado francês tem geleiras, granito e a cultura alpinista de Chamonix. Os italianos incluem as Dolomitas, de torres e paredes verticais de calcário. Os suíços são mais caros e mais organizados, com trem chegando alto. São três viagens distintas.