Tour du Mont Blanc: o roteiro etapa por etapa
O roteiro do TMB nao e uma linha: e uma sequencia de escolhas. Em cinco pontos existe variante alta e baixa, e e ai que a travessia de cada um se decide.
O Tour du Mont Blanc é uma volta completa ao maciço do Mont Blanc, com cerca de 170 quilômetros e algo perto de 10.000 metros de subida acumulada, percorrida em geral no sentido anti-horário, a partir de Les Houches, atravessando França, Itália e Suíça.
Listar as etapas é o que todo guia faz. O que muda a sua travessia não é a lista: são as cinco bifurcações do circuito, onde existe uma variante alta e uma baixa, e escolher entre elas decide quanta subida você faz e o que você vê. Este texto descreve as etapas e, principalmente, essas escolhas. O panorama geral da travessia está em Tour du Mont Blanc.
O desenho do circuito

O circuito começa e termina no mesmo lugar, e essa é a primeira coisa que o distingue de outras travessias alpinas: não há logística de retorno, porque o último dia entrega você onde o primeiro começou.
Ele se organiza em três blocos, um por país. O trecho francês vai de Les Houches ao Col de la Seigne e é o mais longo. O italiano desce ao Vale de Aosta e sobe de volta pelo Val Ferret, e é o de maior espetáculo. O suíço atravessa vales verdes e vilarejos de madeira até o Col de Balme, que devolve a travessia à França.
Vale registrar uma diferença de caráter entre os três blocos, porque ela muda o que se leva na mochila e o que se espera do dia. O trecho francês é o de maior desnível concentrado e o de terreno mais exposto ao vento nos colos. O italiano é o mais quente e o de melhor infraestrutura, com uma cidade no meio do caminho. O suíço é o mais úmido e o mais florestal, com etapas de perfil suave e vilarejos frequentes.
O ponto mais alto do traçado clássico é o Grand Col Ferret, a 2.537 metros, e o circuito não passa de 2.700 em nenhuma das variantes usuais. Isso importa porque mantém a travessia inteira abaixo da faixa em que a altitude costuma cobrar caro de quem vem do nível do mar, e é uma das razões pelas quais ela é acessível a quem nunca caminhou nos Alpes.
Etapa por etapa
Os números abaixo são de referência e variam entre guias, porque cada fonte mede a partir de pontos ligeiramente diferentes e porque as variantes mudam a conta. Use-os como ordem de grandeza.
1. Les Houches a Les Contamines
Cerca de 18 a 20 km. A primeira bifurcação aparece logo: pelo Col de Voza, mais suave e direto, ou pelo Col du Tricot, que sobe mais e cruza uma ponte suspensa sob a geleira de Bionnassay. A variante alta custa uns 400 metros extras de subida e entrega o primeiro contato de perto com gelo. Costuma render de 5 a 7 horas de caminhada, e a noite é em Les Contamines, um vilarejo de vale com oferta ampla de casas e o último supermercado de porte antes de dias de montanha.
2. Les Contamines a Les Chapieux
Cerca de 18 km e 1.300 metros de subida, a maior jornada de desnível do circuito. Sobe-se ao Col du Bonhomme e em seguida ao Col de la Croix du Bonhomme, num terreno alto e exposto ao vento. Aqui está a segunda bifurcação: o Col des Fours, mais alto, é a alternativa para quem quer altitude e encontra o colo livre de neve. São de 6 a 8 horas, e o pernoite é em Les Chapieux, um povoado minúsculo de fundo de vale com pouquíssimos leitos. É um dos gargalos de reserva do circuito.
3. Les Chapieux ao vale italiano
Cerca de 15 a 18 km. É a etapa da primeira fronteira: o Col de la Seigne, a 2.516 metros, onde se entra na Itália e o Mont Blanc aparece pela vertente sul, de frente e sem anteparo. Muita gente descreve esse momento como o ponto alto da travessia inteira. São de 5 a 7 horas. A noite costuma ser num refúgio alto logo depois do colo, já em território italiano, ou mais abaixo no Val Veny para quem prefere encurtar o dia seguinte.
4. Descida a Courmayeur
Cerca de 14 a 18 km, com pouca subida e muita descida. O caminho acompanha o Val Veny com a vertente italiana do maciço sempre à esquerda, e termina em Courmayeur, que é a única cidade de porte do circuito e o melhor ponto para uma noite de descanso. São de 4 a 6 horas, e é a etapa mais curta em esforço. Courmayeur tem hospedagem de todos os tipos, farmácia e loja de equipamento, o que faz dela o ponto natural para resolver qualquer pendência.
5. Courmayeur ao Val Ferret italiano
Cerca de 12 a 14 km, com 1.000 a 1.200 metros de subida logo na saída. É a terceira bifurcação: a via baixa segue pelo fundo do vale, e a alta sobe ao Mont de la Saxe, que devolve, num dia inteiro de varanda, a vista frontal das Grandes Jorasses. Quando o tempo permite, é a variante que mais compensa do circuito. São de 5 a 7 horas pela via alta. A noite é num dos refúgios de encosta do Val Ferret italiano, que estão entre os mais procurados da travessia e esgotam cedo.
6. Travessia para a Suíça
Cerca de 18 a 20 km. Sobe-se ao Grand Col Ferret, a 2.537 metros, a segunda fronteira e o ponto mais alto do traçado clássico. A partir dali a paisagem muda de caráter em poucas horas: sai a alta montanha de granito e geleira, entra o verde suíço. São de 6 a 8 horas. O pernoite costuma ser em La Fouly, o primeiro vilarejo suíço do caminho, pequeno e tranquilo.
7. Descida do Val Ferret suíço
Cerca de 14 a 16 km, sem colo alto. É a etapa mais fácil e a mais frequentemente encurtada por transfer nos programas de 7 a 8 dias, justamente por render pouco em paisagem e bastante em quilometragem. São de 4 a 6 horas, e a noite é em Champex-Lac, um vilarejo à beira de um lago que costuma ser lembrado como a parada mais agradável do trecho suíço.
8. Passagem para o vale de Trient
Cerca de 15 a 17 km. Aqui está a quarta bifurcação, e a mais marcante: a via Bovine, pastoril e coberta de floresta, ou a Fenêtre d’Arpette, a 2.665 metros, num circo rochoso com vista para a geleira do Trient. A Arpette é o dia mais duro do circuito para quem a escolhe, e o mais lembrado. Pela Bovine são de 5 a 7 horas; pela Arpette, de 7 a 9. Dorme-se em Trient ou no colo logo acima, os dois com poucos leitos.
9. Volta à França
Cerca de 13 a 15 km, com subida ao Col de Balme, onde a fronteira devolve a travessia à França e o vale de Chamonix se abre de uma vez, com o maciço inteiro no fundo. É uma das chegadas mais cinematográficas do caminho. São de 4 a 6 horas, e o pernoite é na parte alta do vale de Chamonix, perto de Argentière, já em ambiente de cidade de montanha.
10. A varanda de Chamonix
Cerca de 12 a 14 km. A quinta bifurcação: seguir pela varanda baixa ou subir ao Lac Blanc, com o lago refletindo a face norte do maciço. A subida ao Lac Blanc inclui trechos com escadas metálicas fixas, o que assusta mais do que exige; o que esperar desse tipo de passagem está em via ferrata. São de 5 a 7 horas, e a noite é num refúgio de varanda com vista frontal para o maciço, ou no vale para quem prefere descer.
11. Fechamento em Les Houches
Cerca de 16 a 18 km, passando pelo Brévent, o mirante que fecha a volta com o Mont Blanc de frente pela última vez. A descida a Les Houches é longa e costuma ser encurtada por teleférico, sem prejuízo nenhum ao circuito. São de 6 a 8 horas com a descida inteira a pé, e bem menos com o teleférico. É o dia em que a travessia termina onde começou.
As cinco bifurcações, lado a lado
Esta é a tabela que resume a decisão real do roteiro. A variante alta sempre cobra desnível e sempre entrega vista.
| Etapa | Via normal | Variante alta | O que ela cobra |
|---|---|---|---|
| 1 | Col de Voza | Col du Tricot | ≈400 m extras e uma ponte suspensa |
| 2 | Col de la Croix du Bonhomme | Col des Fours | terreno alto, neve residual até tarde |
| 5 | fundo do Val Ferret | Mont de la Saxe | ≈700 m extras, e a melhor vista do circuito |
| 8 | via Bovine | Fenêtre d’Arpette | ≈600 m extras e o dia mais duro |
| 10 | varanda baixa | Lac Blanc | subida extra e escadas fixas |
Duas dessas cinco merecem comentário próprio, porque são as que mais dividem opinião entre quem já fez o circuito.
A Fenêtre d’Arpette é a mais dura do conjunto e a que tem pior relação entre esforço e garantia: em dia fechado, o circo rochoso que justifica a subida não aparece, e o caminhante paga o preço inteiro sem receber nada. Pela Bovine, o dia é tranquilo e a floresta protege do tempo. É a bifurcação em que mais vale decidir na véspera, olhando a previsão.
O Mont de la Saxe é o oposto: exige bastante, mas o retorno é praticamente garantido em qualquer dia de visibilidade razoável, porque a vista é lateral e contínua, não depende de um ponto específico. Se houver uma única variante alta a escolher na travessia inteira, a maioria de quem já caminhou o circuito indica esta.
Uma regra prática vale mais que a tabela: nenhuma variante alta deve ser decidida com meses de antecedência. Elas dependem de neve residual e de tempo do dia, e a informação confiável está com o refúgio da noite anterior, que sabe o que aconteceu naquele trecho nos últimos dias.
O que se pode pular, e o que não
Nem todo quilômetro do circuito rende igual, e encurtar com critério é diferente de encurtar por acaso.
- Pode pular: a descida final a Les Houches, o fundo do Val Ferret suíço e os trechos de aproximação dentro do vale de Chamonix. São transições, não paisagem.
- Não pule: os dois colos de fronteira. O Col de la Seigne e o Grand Col Ferret são o que faz do TMB uma travessia de três países; sem eles, o circuito vira uma sequência de caminhadas na mesma região.
- Pense duas vezes: o trecho do Mont de la Saxe. É o único ponto do caminho em que se anda um dia inteiro com o maciço de frente.
Há também uma decisão menos discutida e igualmente relevante: onde dormir alto e onde dormir no vale. Refúgio de encosta entrega a noite em plena montanha, com o nascer do sol na parede em frente, e cobra menos conforto e menos chuveiro. Casa de vilarejo entrega descanso melhor e custa uma subida extra no dia seguinte. A maioria dos roteiros alterna os dois de propósito, e não por acaso. A mecânica de como uma casa de etapa funciona está em refúgios nos Alpes, e a corrente de reservas específica deste circuito está em os refúgios do TMB.
Onde o circuito encontra estrada
Saber disso muda o planejamento de quem monta versão curta, e é a informação de segurança mais útil do roteiro. O circuito toca estrada em pontos regulares: Les Houches, Les Contamines, Les Chapieux, Courmayeur, o Val Ferret suíço, Champex, Trient e o vale de Chamonix.
Na prática, isso significa que nunca se está a mais de um dia de caminhada de um ponto com transporte. Em caso de tempo ruim, lesão ou simples mudança de plano, existe saída sem improviso, e essa é uma das razões pelas quais o TMB é a travessia alpina mais recomendada para uma primeira vez.
Em que sentido percorrer
A grande maioria faz anti-horário, e não é tradição: é o sentido que põe o sol nas costas nas subidas da manhã, deixa o maciço de frente no trecho italiano e casa com o fluxo dos refúgios e dos transfers. O sentido horário é defensável para quem quer encontrar menos gente, ao custo de transformar os colos mais duros em descidas longas. O detalhamento dessa escolha está em em que sentido fazer a travessia.
Há um efeito prático do sentido que quase não se menciona: percorrendo anti-horário, você cruza o dia inteiro com quem vem no sentido oposto, e essa troca de informação sobre o trecho à frente é uma das fontes mais úteis de que se dispõe em rota. No sentido horário, essa troca é constante e o isolamento entre grupos é maior.
Quanto tempo isso leva
São 11 dias de caminhada no circuito completo, cerca de 7 a 8 na versão que a maioria dos programas percorre, e 5 no recorte franco-italiano. Somando chegada, deslocamento e uma margem para mau tempo, o circuito completo pede de 15 a 16 dias de viagem. A comparação entre os três formatos está em quantos dias leva a travessia.
Como a Mountain Hut percorre o circuito
Nossa travessia são 10 dias e 9 noites, de Les Houches a Les Houches, no sentido anti-horário e com as duas fronteiras a pé. Montamos a corrente de reservas dos refúgios, o transporte da bagagem principal entre as etapas e o briefing de saída com roadbook, mapas e tracks, e as decisões de variante em rota continuam sendo suas, tomadas com a informação do dia.
O detalhamento dia a dia e as datas estão em o nosso Tour du Mont Blanc. Para comparar com a outra travessia que operamos, o caminho é roteiros do Mountain Hut.
Perguntas frequentes
Quantas etapas tem o Tour du Mont Blanc?
O circuito clássico tem 11 etapas, saindo de Les Houches e voltando a Les Houches pela volta completa ao maciço. São cerca de 170 quilômetros e algo perto de 10.000 metros de subida acumulada, atravessando França, Itália e Suíça a pé, com dois colos de fronteira acima de 2.500 metros.
Quais são as bifurcações do Tour du Mont Blanc?
São cinco pontos com variante alta e baixa: Col de Voza ou Col du Tricot na primeira etapa; Col de la Croix du Bonhomme ou Col des Fours na segunda; fundo do Val Ferret ou Mont de la Saxe na quinta; via Bovine ou Fenêtre d’Arpette na oitava; e varanda baixa ou Lac Blanc na décima. A variante alta sempre cobra desnível e sempre entrega vista.
Qual é o ponto mais alto do Tour du Mont Blanc?
O Grand Col Ferret, a 2.537 metros, na fronteira entre Itália e Suíça. O circuito não passa de 2.700 metros em nenhuma das variantes usuais, o que mantém a travessia inteira abaixo da faixa em que a altitude costuma cobrar caro de quem vem do nível do mar.
Qual variante vale mais a pena no Tour du Mont Blanc?
O Mont de la Saxe, na quinta etapa, é a mais indicada por quem já percorreu o circuito. Ela exige cerca de 700 metros extras de subida, mas o retorno é praticamente garantido em qualquer dia de visibilidade razoável, porque a vista das Grandes Jorasses é lateral e contínua, e não depende de um ponto específico.
Vale a pena subir a Fenêtre d’Arpette?
É a variante mais dura do circuito e a de pior relação entre esforço e garantia. Em dia fechado, o circo rochoso que justifica a subida não aparece e o caminhante paga o preço inteiro sem receber nada. Pela via Bovine o dia é tranquilo e a floresta protege do tempo. É a bifurcação em que mais vale decidir na véspera, olhando a previsão.
Quando decidir entre a variante alta e a baixa?
Na véspera, nunca com meses de antecedência. As variantes altas dependem de neve residual e do tempo do dia, e a informação confiável está com o refúgio da noite anterior, que sabe o que aconteceu naquele trecho nos últimos dias. Montar o roteiro com plano A e plano B para cada bifurcação vale mais que tentar acertar tudo antes.
Que trechos do Tour du Mont Blanc podem ser pulados?
A descida final a Les Houches, o fundo do Val Ferret suíço e os trechos de aproximação dentro do vale de Chamonix, que são transições e não paisagem. O que não se pula são os dois colos de fronteira, o Col de la Seigne e o Grand Col Ferret: sem eles o circuito deixa de ser uma travessia de três países.
O Tour du Mont Blanc passa por estrada em algum ponto?
Sim, em pontos regulares: Les Houches, Les Contamines, Les Chapieux, Courmayeur, o Val Ferret suíço, Champex, Trient e o vale de Chamonix. Nunca se está a mais de um dia de caminhada de um ponto com transporte, o que significa saída sem improviso em caso de tempo ruim ou lesão.
Onde se dorme durante o Tour du Mont Blanc?
Numa corrente de casas de etapa, uma por noite, alternando refúgios de encosta e casas de vilarejo. O refúgio alto entrega a noite em plena montanha e cobra menos conforto; a casa de vale entrega descanso melhor e custa uma subida extra no dia seguinte. Les Chapieux e os refúgios do Val Ferret italiano são os gargalos de reserva.
Em que sentido percorrer o Tour du Mont Blanc?
A grande maioria faz anti-horário, e não é tradição: é o sentido que põe o sol nas costas nas subidas da manhã, deixa o maciço de frente no trecho italiano e casa com o fluxo dos refúgios e dos transfers. O sentido horário é defensável para quem quer encontrar menos gente, ao custo de transformar os colos mais duros em descidas longas.