Preparo · 9 min de leitura

O que levar em um trekking: o checklist de uma travessia alpina

O peso-alvo da mochila, a diferença entre carregar tudo e ter a bagagem transportada, o sistema de camadas, o que o refúgio já resolve e a lista honesta do que deixar em casa.

O que levar em um trekking: o checklist de uma travessia alpina. Capa sobre foto de trilha nos Alpes, com o peso-alvo de 6 a 8 kg, as três camadas de roupa, as duas mudas e o saco-lençol obrigatório

Toda lista de o que levar em um trekking na internet é uma soma: vai acumulando itens até garantir que nada falte. O problema é que essa soma vai nas suas costas, subindo mil metros por dia, durante nove ou dez dias. A lista boa faz o contrário: parte de um peso-alvo e pergunta, item por item, se ele merece o lugar que ocupa.

Este guia é a lista de uma travessia alpina de refúgio em refúgio, que é um caso específico e mais leve do que parece: você vai dormir em casa com cobertor, jantar e café da manhã. Isso elimina barraca, saco de dormir de montanha, fogareiro, panela e a maior parte da comida, que é justamente o que pesa numa lista de camping.

Antes da lista: quanto a mochila deve pesar

A referência prática de quem caminha vários dias é ficar entre seis e oito quilos com água na mochila do dia. Abaixo disso é excelente, acima disso a conta aparece na terceira subida, e cada quilo extra pesa mais na descida do que na subida, porque é o joelho que segura.

O teste que resolve a maior parte das dúvidas: pegue o item e pergunte quantas vezes você vai usá-lo em dez dias. Se a resposta for “vai que precisa”, ele fica em casa. A exceção é o que existe para o dia ruim: capa de chuva, camada quente e lanterna não se discutem, mesmo que a previsão esteja boa.

A pergunta que muda a lista: você carrega tudo?

Aqui está a diferença que quase nenhuma lista genérica faz, e que muda a mochila inteira. No nosso Tour du Mont Blanc, a bagagem principal é transportada entre as etapas: você caminha com uma mochila de dia e reencontra a mala à noite, o que permite levar mais muda e um calçado extra. Na Alta Via 1, você carrega o que leva, do primeiro ao último dia, e aí a disciplina de peso deixa de ser conselho e vira condição.

Antes de montar a mochila, confirme em qual dos dois formatos está a sua travessia. É a informação que define se você leva duas ou quatro camisetas.

O que pesa na mochila


Gráfico das categorias de peso de uma mochila de travessia alpina: água de 1 a 1,5 kg, roupa de 1,5 a 2 kg, casaco e capa de chuva de 0,8 a 1,2 kg, a própria mochila de 1 a 1,5 kg, eletrônicos, higiene e comida do dia entre 0,3 e 0,6 kg cada, somando o peso-alvo de 6 a 8 kg com água

Poucas categorias respondem por quase todo o peso. Vale conhecê-las para saber onde cortar de verdade, em vez de economizar dez gramas na escova de dente:

  • Água: costuma ser o item mais pesado do dia. Um litro pesa um quilo, e a maioria das etapas alpinas tem ponto de reabastecimento, o que permite caminhar com menos e completar no caminho.
  • Roupa: o segundo maior. É onde mora o excesso, porque roupa parece leve uma peça de cada vez.
  • Casaco e capa de chuva: peso obrigatório, e o item em que vale investir em qualidade, não cortar.
  • A própria mochila: mochilas grandes pesam mais vazias. Para travessia com refúgio, algo entre 30 e 40 litros costuma bastar quando você carrega tudo, e menos ainda quando a bagagem é transportada.
  • Eletrônicos: celular, bateria externa e cabos somam mais do que se imagina.

Dois itens ficam fora dessa conta e merecem parágrafo próprio. Os bastões de caminhada pesam pouco e devolvem muito: aliviam parte da carga do joelho na descida, que é onde o corpo mais sofre, e dão estabilidade em terreno solto. Quem nunca usou deve treinar com eles antes, porque bastão também é técnica. E a bateria externa, que parece supérflua até o terceiro dia sem tomada disponível no refúgio, com o celular fazendo as vezes de mapa, câmera e track de GPS.

Roupa: o sistema de camadas

A montanha muda de temperatura várias vezes por dia: sai-se com frio, sobe-se transpirando, para-se no colo com vento. O jeito de resolver isso com pouco peso é vestir em três camadas e ajustar durante o dia.

  • Base: camiseta técnica que seca rápido. Nada de algodão, que guarda umidade e esfria o corpo na parada.
  • Isolamento: uma segunda pele ou fleece para os colos e para a noite, mais uma camada quente compacta para o fim do dia no refúgio.
  • Casca: capa de chuva com capuz que realmente segure água e vento. É a peça que salva o dia.

Em quantidade, duas mudas de caminhada bastam quando você carrega tudo: uma no corpo e uma secando. Lava-se no refúgio ao chegar. Some a isso a roupa de dormir, que não vai para a trilha, e a calça que aguenta o dia inteiro.

Pés

É onde as viagens são ganhas ou perdidas. A bota precisa estar amaciada, com semanas de uso antes da viagem, e ter travamento de tornozelo se o terreno for pedregoso, como nas Dolomitas. Meia técnica, nunca de algodão, e um par extra sempre seco. Leve o que trata bolha no primeiro sinal, porque bolha cuidada no dia um não vira problema no dia três, e um chinelo leve para o fim do dia, que também serve para o banho do refúgio.

O que o refúgio já tem, e o que ele exige

O refúgio resolve muita coisa: cama com cobertor e travesseiro, jantar e café da manhã na meia-pensão, água, e em geral a possibilidade de comprar almoço para levar. Por isso não se leva barraca, saco de dormir de montanha, fogareiro nem comida para dez dias.

Em troca, ele exige duas coisas que muita gente esquece: saco-lençol, obrigatório na maioria das casas, e dinheiro em espécie, porque em altitude nem sempre há sinal para cartão. Some tampão de ouvido, que num dormitório coletivo vale mais que qualquer item de conforto, e uma lanterna de cabeça para circular de madrugada sem acordar a casa.

Segurança, farmácia e documentos

Um kit pequeno e honesto: o que você já sabe usar. Curativo para bolha, analgésico, anti-inflamatório se for de uso conhecido, o que trata dor de estômago, protetor solar de fator alto e protetor labial, que em altitude não é vaidade. Óculos escuros, boné ou chapéu, e um apito, que costuma vir na própria mochila.

Documentos e reservas em papel e em foto no celular, com o seguro de viagem à mão. Se a travessia cruza fronteiras, como o Tour du Mont Blanc entre França, Itália e Suíça, leve o passaporte no corpo, não na mala transportada.

O que deixar em casa

  • Roupa “para o caso de”. Uma muda extra por dia é o erro mais comum de todos.
  • Toalha grande. Uma de secagem rápida, pequena, resolve.
  • Comida para a semana. Leve lanche do dia, não despensa: os refúgios vendem o almoço.
  • Jeans e algodão. Pesam molhados e não secam.
  • Equipamento técnico que você não usa. Se nunca usou, a travessia não é o lugar de aprender.
  • Bota nova. Vale repetir: é a causa número um de dia arruinado.

Antes de fechar a mochila

Use esta lista como checklist uma vez em casa: monte a mochila inteira, com água, e pese. É o ensaio que revela o que sobra: passou dos oito quilos, tem item aí que não vai ser usado. E ande uma hora com ela nas costas, porque é assim que se descobre onde ela machuca, e não no terceiro colo do primeiro dia.

Vale ler também o guia de como se preparar para uma trilha de vários dias, que cobre reservas, refúgios e a rotina da montanha, e o de treino para trekking, que é a outra metade do preparo.

Como o Mountain Hut organiza a travessia onde essa mochila vai

Nossas travessias são auto guiadas, de refúgio em refúgio: a gente resolve a hospedagem e a logística, incluindo o transporte de bagagem no Tour du Mont Blanc, e você caminha no seu ritmo com roadbook, mapas e tracks de GPS.

Se quiser ver os dias, os desníveis e as datas de cada roteiro, eles estão em roteiros do Mountain Hut.

Perguntas frequentes

O que levar em um trekking de vários dias?

Numa travessia de refúgio em refúgio: roupa em três camadas com duas mudas, capa de chuva, bota amaciada e meias técnicas, saco-lençol, lanterna de cabeça, água, lanche do dia, kit de farmácia pequeno, documentos, seguro e dinheiro em espécie. Não se leva barraca, saco de dormir de montanha, fogareiro nem comida para a semana, porque o refúgio oferece cama e refeições.

Quanto deve pesar a mochila?

A referência prática é de seis a oito quilos com água na mochila do dia. Abaixo disso é excelente. Acima, o peso aparece na terceira subida, e pesa ainda mais na descida, que é onde o joelho segura o corpo.

Preciso levar saco de dormir para dormir em refúgio?

Não. Os refúgios alpinos fornecem cobertor e travesseiro. O que a maioria das casas exige é o saco-lençol, que é leve e ocupa pouco espaço. Saco de dormir de montanha é peso desnecessário nesse tipo de travessia.

Bota ou tênis de trilha?

Nas travessias alpinas com terreno pedregoso, como as Dolomitas, a bota com travamento de tornozelo protege mais. O que não se discute é o amaciamento: o par precisa de semanas de uso antes da viagem. Bota nova estreando no primeiro dia é a causa número um de dia arruinado.

Bastões de caminhada valem a pena?

Valem. Pesam pouco, aliviam parte da carga do joelho na descida e dão estabilidade em terreno solto. Quem nunca usou deve treinar com eles antes da viagem, porque usar bastão também é técnica.

Quantas mudas de roupa levar?

Duas mudas de caminhada bastam quando você carrega tudo: uma no corpo e uma secando, lavadas no refúgio ao chegar. Some a roupa de dormir, que não vai para a trilha. Quando a bagagem é transportada entre as etapas, cabe uma muda a mais e um calçado extra.

Preciso levar comida?

Só o lanche do dia: barras, castanhas, fruta seca. Na meia-pensão o jantar e o café da manhã estão incluídos, e em geral dá para comprar o almoço no refúgio para levar. Comida para a semana é peso morto.

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