Tour du Mont Blanc · 10 min de leitura

Trekking na Europa: as oito travessias que valem a passagem

Numa travessia europeia você não carrega barraca, comida nem fogareiro: a mochila fica em oito quilos. As oito grandes travessias do continente comparadas por dias, distância e onde se dorme, e qual delas faz sentido como primeira.

Trekking na Europa: as oito travessias que valem a passagem. Capa sobre foto de agulhas de granito ao pôr do sol, com o número de travessias comparadas, a faixa de 4 a 15 dias, os 8 quilos da mochila sem barraca e a janela de junho a setembro nos Alpes

Trekking na Europa é caminhar vários dias seguidos por trilha marcada, dormindo em casas de etapa espaçadas a um dia de caminhada uma da outra. É o que muda tudo em relação a uma travessia no Brasil: você não carrega barraca, não carrega comida de cinco dias e não carrega fogareiro. A mochila fica em oito ou nove quilos, e o que sobra de peso vira quilômetro.

Este guia é sobre as travessias que valem a passagem: quantos dias cada uma pede, quantos quilômetros por dia elas cobram, onde você dorme em cada uma e qual delas faz sentido como primeira.

O que a Europa tem que o Brasil não tem

Não é a montanha, é a infraestrutura. A cordilheira alpina foi habitada, cultivada e atravessada por séculos, e a rede que sobrou disso é o que permite caminhar leve:

  • Casa de etapa todos os dias. Refúgio, cabana ou pousada de vilarejo, com cama, comida e teto no fim de cada dia de trilha.
  • Trilha marcada e sinalizada. Placa com tempo estimado em cada bifurcação, e marca de tinta na pedra entre elas. Perder-se exige esforço.
  • Transporte público chegando ao pé da montanha. Trem e ônibus de linha até o fundo do vale, e ônibus de temporada dentro dele, que é a sua saída se o dia der errado.
  • Água tratada no caminho. Fonte em vilarejo e em refúgio, o que dispensa carregar litros.

O que a Europa cobra em troca é antecedência. As casas de etapa das travessias famosas esgotam com meses de antecedência para as datas de julho e agosto, e cada uma tem o seu canal de reserva.

As oito travessias que valem a viagem


As oito grandes travessias da Europa num plano de distância por número de dias, com a cor de cada ponto indicando onde se dorme: Tour du Mont Blanc com 170 km em 10 dias, Alta Via 1 com 128 km em 9 dias, Haute Route com 200 km em 13 dias, Circuito do Monte Rosa com 160 km em 10 dias, GR20 com 180 km em 15 dias, West Highland Way com 154 km em 7 dias, Kungsleden com 110 km em 9 dias e Laugavegur com 55 km em 4 dias

Travessia Onde Distância Dias Onde se dorme
Tour du Mont Blanc França, Itália e Suíça ≈170 km 10 Refúgio com meia-pensão
Alta Via 1 Dolomitas, Itália ≈120 a 135 km 9 Refúgio com meia-pensão
Haute Route Chamonix a Zermatt ≈200 km 12 a 14 Refúgio com meia-pensão
Circuito do Monte Rosa Itália e Suíça ≈160 km 9 a 10 Refúgio com meia-pensão
GR20 Córsega, França ≈180 km 15 Refúgio simples e barraca
West Highland Way Escócia ≈154 km 6 a 8 Pousada de vilarejo
Kungsleden, trecho norte Lapônia, Suécia ≈110 km 7 a 12 Cabana sem serviço
Laugavegur Islândia ≈55 km 4 Cabana sem serviço

A coluna que decide a viagem é a última. Refúgio com meia-pensão significa que o jantar e o café da manhã estão na conta e que você não cozinha; é o que torna a mochila leve. Cabana sem serviço significa cama e cozinha comunitária, mas comida por sua conta, e na Islândia e na Lapônia isso quer dizer carregar os quatro ou dez dias inteiros. Barraca, no GR20, é o que a maioria acaba usando porque os refúgios são poucos e cheios.

Fora dessas oito, três menções honrosas: a Selvaggio Blu, na Sardenha, que é a travessia mais difícil da Itália e envolve rapel; a Rota Vicentina, no litoral do Alentejo, que é caminhada de vários dias sem montanha nenhuma e funciona em qualquer estação; e o Caminho de Santiago, que é outra coisa e vale dizer por quê: são estradas de terra e vilarejo, sem colo de montanha, e o assunto ali é a peregrinação, não a travessia alpina.

Distância não é dificuldade

Compare duas linhas da tabela. O West Highland Way tem 154 km em sete dias, o que dá 22 km por dia. O GR20 tem 180 km em quinze dias, o que dá doze. O segundo é incomparavelmente mais duro, porque na Escócia se caminha por vale e margem de lago, e na Córsega se sobe e desce colo de granito todo santo dia.

O número que importa é o desnível positivo diário. Nas travessias alpinas ele fica entre 600 e 1.300 metros por dia, e é ele que define como o dia vai doer. É o mesmo cálculo do treino para trekking: quem prepara o corpo para a subida chega à casa de etapa com luz do dia.

Qual escolher como primeira travessia

Se é a sua primeira, a escolha está entre as quatro primeiras linhas da tabela, e por um motivo prático: são as que têm refúgio servido todos os dias, trilha sem trecho técnico obrigatório e ônibus de fuga no fundo do vale.

  • Tour du Mont Blanc: a mais célebre das quatro, e a que dá a volta completa em uma montanha, cruzando três países. Soma cerca de 10.000 metros de subida, e é a que tem mais gente na trilha em agosto.
  • Alta Via 1: atravessa as Dolomitas de norte a sul, com calcário vertical em vez de geleira. Um pouco mais curta, um pouco mais leve de subida, com a melhor rede de refúgios e a melhor comida dos Alpes.
  • Haute Route: a mais longa e a mais alta das quatro, ligando o Mont Blanc ao Matterhorn. É o passo seguinte de quem já fez uma das duas de cima.
  • Circuito do Monte Rosa: a menos conhecida, e a que tem menos gente. Cruza colos altos entre Itália e Suíça, com trechos que pedem atenção a glaciares.

Laugavegur e Kungsleden são bonitas e são outra habilidade: sem refúgio servido, a autonomia de comida vira o problema central. E o GR20 é uma travessia para quem já atravessou.

Quando ir

A janela quase nunca é sua para escolher, e ela varia por região:

  • Alpes, de meados de junho a meados de setembro, com os refúgios abertos e os colos livres de neve a partir de julho. O começo de setembro é a melhor troca entre tempo bom e trilha vazia.
  • Córsega, de junho a setembro, com julho e agosto quentes demais no sul da ilha.
  • Islândia, uma janela curta de julho a meados de setembro, e só.
  • Lapônia sueca, de fim de junho a meados de setembro, com mosquito em julho e cores de outono no fim.
  • Escócia, de abril a outubro, e é a única da lista que funciona fora do verão.

Quantos dias de férias você precisa

Some três dias aos números da tabela: um para chegar ao ponto de partida, um de folga antes de começar e um para voltar. Uma travessia de dez dias vira uma viagem de treze, e é assim que ela cabe numa contagem realista de férias.

Vale a pena somar mais dois se a viagem for longa, porque a passagem aérea é o item fixo do orçamento e ela se dilui em mais dias de montanha. Fora dos Alpes, essa conta muda: Laugavegur em quatro dias caminhando é uma viagem de uma semana à Islândia, com o resto do tempo no país.

O que muda na mochila

Numa travessia de refúgio servido, a mochila é de oito a dez quilos, e o que pesa é roupa, água do dia e capa de chuva. Não entra barraca, saco de dormir de montanha, panela nem comida além do almoço de percurso. O que entra e muita gente esquece é o saco-lençol, obrigatório em quase todo refúgio alpino, e a lista completa está em o que levar em um trekking.

Nas travessias de cabana sem serviço, some o fogareiro, a panela e a comida de todos os dias, e a mochila vai a quinze quilos ou mais. É outra viagem, com outro treino.

Refúgio, hut, rifugio, cabane: os nomes mudam, a casa também

Refuge na França, rifugio na Itália, cabane ou Hütte na Suíça, hut na Escócia e na Islândia. O nome muda de país para país e o padrão também: em alguns há quarto de quatro a seis camas e chuveiro quente, em outros um dormitório coletivo grande e água contada. O que se repete é o jantar comunitário, com todos à mesa na mesma hora, que é onde a travessia deixa de ser esporte. Como funciona uma noite dessas, em detalhe, está em refúgios nos Alpes.

Auto guiado, guiado, ou por conta

As três formas existem, e a diferença entre elas não é o preço, é quem resolve a corrente de reservas. Montar uma sequência de nove noites consecutivas, em que cada dia depende do anterior e uma noite que falha derruba a etapa inteira, é um trabalho de semanas. A comparação honesta dos três formatos está em auto guiado x guiado.

As duas travessias que o Mountain Hut opera

Nosso Tour du Mont Blanc são dez dias e nove noites, de Les Houches a Les Houches, com cerca de 170 km e 10.000 metros de subida. Nossa Alta Via 1 são nove dias e oito noites, do Lago di Braies às portas de Belluno, com 120 a 135 km.

As duas são auto guiadas: você caminha no seu ritmo, com roadbook, mapas e tracks de GPS, decide na hora se sobe a variante ou não, e a gente resolve a corrente de reservas dos refúgios. Os dias, os desníveis e as datas estão em roteiros do Mountain Hut.

Perguntas frequentes

Qual a melhor trilha de vários dias na Europa?

Não existe uma só, existe a que combina com o que você já caminhou. Para uma primeira travessia, as quatro com refúgio servido todos os dias são as mais confortáveis: o Tour du Mont Blanc, com cerca de 170 km em 10 dias, a Alta Via 1 nas Dolomitas, com 120 a 135 km em 9 dias, a Haute Route de Chamonix a Zermatt e o circuito do Monte Rosa. GR20, Kungsleden e Laugavegur pedem autonomia de comida ou barraca.

Precisa levar barraca para fazer trekking na Europa?

Nas travessias alpinas clássicas, não. Você dorme em refúgio com meia-pensão, que inclui jantar, cama e café da manhã, e a mochila fica em oito a dez quilos. Barraca e fogareiro só entram no GR20, na Córsega, e nas travessias de cabana sem serviço da Islândia e da Lapônia sueca, onde a comida de todos os dias é por sua conta.

Quantos dias leva uma travessia na Europa?

De quatro a quinze dias de caminhada, conforme a travessia. Laugavegur, na Islândia, tem quatro; o Tour du Mont Blanc, dez; a Haute Route, de doze a quatorze; o GR20, quinze. Para calcular férias, some três dias ao número: um para chegar ao ponto de partida, um de folga antes de começar e um para voltar.

Qual a melhor época para trekking na Europa?

Nos Alpes, de meados de junho a meados de setembro, com os colos livres de neve a partir de julho e o começo de setembro como a melhor troca entre tempo bom e trilha vazia. Na Islândia a janela é curta, de julho a meados de setembro. Na Lapônia sueca vai do fim de junho a meados de setembro. A Escócia é a única da lista que funciona fora do verão, de abril a outubro.

Qual travessia europeia é boa para quem nunca fez?

As que têm refúgio servido todos os dias, trilha sem trecho técnico obrigatório e ônibus de fuga no fundo do vale: o Tour du Mont Blanc e a Alta Via 1 são as duas mais indicadas. A primeira dá a volta em uma montanha cruzando três países; a segunda atravessa as Dolomitas de norte a sul, com a melhor rede de refúgios dos Alpes.

Quanto pesa a mochila numa travessia europeia?

De oito a dez quilos numa travessia de refúgio servido, e o que pesa é roupa, água do dia e capa de chuva. Não entra barraca, saco de dormir de montanha, panela nem comida além do almoço de percurso. O saco-lençol é obrigatório em quase todo refúgio alpino. Em travessia de cabana sem serviço, com fogareiro e comida de todos os dias, a mochila vai a quinze quilos ou mais.

O Caminho de Santiago conta como trekking?

É caminhada de vários dias, mas é outra coisa. São estradas de terra e vilarejo, sem colo de montanha e sem desnível de travessia alpina, e o assunto ali é a peregrinação. Quem procura montanha, refúgio e desnível não vai encontrar no Caminho o que encontra numa alta via ou num circuito alpino.

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