Trekking na Europa: as oito travessias que valem a passagem
Numa travessia europeia você não carrega barraca, comida nem fogareiro: a mochila fica em oito quilos. As oito grandes travessias do continente comparadas por dias, distância e onde se dorme, e qual delas faz sentido como primeira.
Trekking na Europa é caminhar vários dias seguidos por trilha marcada, dormindo em casas de etapa espaçadas a um dia de caminhada uma da outra. É o que muda tudo em relação a uma travessia no Brasil: você não carrega barraca, não carrega comida de cinco dias e não carrega fogareiro. A mochila fica em oito ou nove quilos, e o que sobra de peso vira quilômetro.
Este guia é sobre as travessias que valem a passagem: quantos dias cada uma pede, quantos quilômetros por dia elas cobram, onde você dorme em cada uma e qual delas faz sentido como primeira.
O que a Europa tem que o Brasil não tem
Não é a montanha, é a infraestrutura. A cordilheira alpina foi habitada, cultivada e atravessada por séculos, e a rede que sobrou disso é o que permite caminhar leve:
- Casa de etapa todos os dias. Refúgio, cabana ou pousada de vilarejo, com cama, comida e teto no fim de cada dia de trilha.
- Trilha marcada e sinalizada. Placa com tempo estimado em cada bifurcação, e marca de tinta na pedra entre elas. Perder-se exige esforço.
- Transporte público chegando ao pé da montanha. Trem e ônibus de linha até o fundo do vale, e ônibus de temporada dentro dele, que é a sua saída se o dia der errado.
- Água tratada no caminho. Fonte em vilarejo e em refúgio, o que dispensa carregar litros.
O que a Europa cobra em troca é antecedência. As casas de etapa das travessias famosas esgotam com meses de antecedência para as datas de julho e agosto, e cada uma tem o seu canal de reserva.
As oito travessias que valem a viagem

| Travessia | Onde | Distância | Dias | Onde se dorme |
|---|---|---|---|---|
| Tour du Mont Blanc | França, Itália e Suíça | ≈170 km | 10 | Refúgio com meia-pensão |
| Alta Via 1 | Dolomitas, Itália | ≈120 a 135 km | 9 | Refúgio com meia-pensão |
| Haute Route | Chamonix a Zermatt | ≈200 km | 12 a 14 | Refúgio com meia-pensão |
| Circuito do Monte Rosa | Itália e Suíça | ≈160 km | 9 a 10 | Refúgio com meia-pensão |
| GR20 | Córsega, França | ≈180 km | 15 | Refúgio simples e barraca |
| West Highland Way | Escócia | ≈154 km | 6 a 8 | Pousada de vilarejo |
| Kungsleden, trecho norte | Lapônia, Suécia | ≈110 km | 7 a 12 | Cabana sem serviço |
| Laugavegur | Islândia | ≈55 km | 4 | Cabana sem serviço |
A coluna que decide a viagem é a última. Refúgio com meia-pensão significa que o jantar e o café da manhã estão na conta e que você não cozinha; é o que torna a mochila leve. Cabana sem serviço significa cama e cozinha comunitária, mas comida por sua conta, e na Islândia e na Lapônia isso quer dizer carregar os quatro ou dez dias inteiros. Barraca, no GR20, é o que a maioria acaba usando porque os refúgios são poucos e cheios.
Fora dessas oito, três menções honrosas: a Selvaggio Blu, na Sardenha, que é a travessia mais difícil da Itália e envolve rapel; a Rota Vicentina, no litoral do Alentejo, que é caminhada de vários dias sem montanha nenhuma e funciona em qualquer estação; e o Caminho de Santiago, que é outra coisa e vale dizer por quê: são estradas de terra e vilarejo, sem colo de montanha, e o assunto ali é a peregrinação, não a travessia alpina.
Distância não é dificuldade
Compare duas linhas da tabela. O West Highland Way tem 154 km em sete dias, o que dá 22 km por dia. O GR20 tem 180 km em quinze dias, o que dá doze. O segundo é incomparavelmente mais duro, porque na Escócia se caminha por vale e margem de lago, e na Córsega se sobe e desce colo de granito todo santo dia.
O número que importa é o desnível positivo diário. Nas travessias alpinas ele fica entre 600 e 1.300 metros por dia, e é ele que define como o dia vai doer. É o mesmo cálculo do treino para trekking: quem prepara o corpo para a subida chega à casa de etapa com luz do dia.
Qual escolher como primeira travessia
Se é a sua primeira, a escolha está entre as quatro primeiras linhas da tabela, e por um motivo prático: são as que têm refúgio servido todos os dias, trilha sem trecho técnico obrigatório e ônibus de fuga no fundo do vale.
- Tour du Mont Blanc: a mais célebre das quatro, e a que dá a volta completa em uma montanha, cruzando três países. Soma cerca de 10.000 metros de subida, e é a que tem mais gente na trilha em agosto.
- Alta Via 1: atravessa as Dolomitas de norte a sul, com calcário vertical em vez de geleira. Um pouco mais curta, um pouco mais leve de subida, com a melhor rede de refúgios e a melhor comida dos Alpes.
- Haute Route: a mais longa e a mais alta das quatro, ligando o Mont Blanc ao Matterhorn. É o passo seguinte de quem já fez uma das duas de cima.
- Circuito do Monte Rosa: a menos conhecida, e a que tem menos gente. Cruza colos altos entre Itália e Suíça, com trechos que pedem atenção a glaciares.
Laugavegur e Kungsleden são bonitas e são outra habilidade: sem refúgio servido, a autonomia de comida vira o problema central. E o GR20 é uma travessia para quem já atravessou.
Quando ir
A janela quase nunca é sua para escolher, e ela varia por região:
- Alpes, de meados de junho a meados de setembro, com os refúgios abertos e os colos livres de neve a partir de julho. O começo de setembro é a melhor troca entre tempo bom e trilha vazia.
- Córsega, de junho a setembro, com julho e agosto quentes demais no sul da ilha.
- Islândia, uma janela curta de julho a meados de setembro, e só.
- Lapônia sueca, de fim de junho a meados de setembro, com mosquito em julho e cores de outono no fim.
- Escócia, de abril a outubro, e é a única da lista que funciona fora do verão.
Quantos dias de férias você precisa
Some três dias aos números da tabela: um para chegar ao ponto de partida, um de folga antes de começar e um para voltar. Uma travessia de dez dias vira uma viagem de treze, e é assim que ela cabe numa contagem realista de férias.
Vale a pena somar mais dois se a viagem for longa, porque a passagem aérea é o item fixo do orçamento e ela se dilui em mais dias de montanha. Fora dos Alpes, essa conta muda: Laugavegur em quatro dias caminhando é uma viagem de uma semana à Islândia, com o resto do tempo no país.
O que muda na mochila
Numa travessia de refúgio servido, a mochila é de oito a dez quilos, e o que pesa é roupa, água do dia e capa de chuva. Não entra barraca, saco de dormir de montanha, panela nem comida além do almoço de percurso. O que entra e muita gente esquece é o saco-lençol, obrigatório em quase todo refúgio alpino, e a lista completa está em o que levar em um trekking.
Nas travessias de cabana sem serviço, some o fogareiro, a panela e a comida de todos os dias, e a mochila vai a quinze quilos ou mais. É outra viagem, com outro treino.
Refúgio, hut, rifugio, cabane: os nomes mudam, a casa também
Refuge na França, rifugio na Itália, cabane ou Hütte na Suíça, hut na Escócia e na Islândia. O nome muda de país para país e o padrão também: em alguns há quarto de quatro a seis camas e chuveiro quente, em outros um dormitório coletivo grande e água contada. O que se repete é o jantar comunitário, com todos à mesa na mesma hora, que é onde a travessia deixa de ser esporte. Como funciona uma noite dessas, em detalhe, está em refúgios nos Alpes.
Auto guiado, guiado, ou por conta
As três formas existem, e a diferença entre elas não é o preço, é quem resolve a corrente de reservas. Montar uma sequência de nove noites consecutivas, em que cada dia depende do anterior e uma noite que falha derruba a etapa inteira, é um trabalho de semanas. A comparação honesta dos três formatos está em auto guiado x guiado.
As duas travessias que o Mountain Hut opera
Nosso Tour du Mont Blanc são dez dias e nove noites, de Les Houches a Les Houches, com cerca de 170 km e 10.000 metros de subida. Nossa Alta Via 1 são nove dias e oito noites, do Lago di Braies às portas de Belluno, com 120 a 135 km.
As duas são auto guiadas: você caminha no seu ritmo, com roadbook, mapas e tracks de GPS, decide na hora se sobe a variante ou não, e a gente resolve a corrente de reservas dos refúgios. Os dias, os desníveis e as datas estão em roteiros do Mountain Hut.
Perguntas frequentes
Qual a melhor trilha de vários dias na Europa?
Não existe uma só, existe a que combina com o que você já caminhou. Para uma primeira travessia, as quatro com refúgio servido todos os dias são as mais confortáveis: o Tour du Mont Blanc, com cerca de 170 km em 10 dias, a Alta Via 1 nas Dolomitas, com 120 a 135 km em 9 dias, a Haute Route de Chamonix a Zermatt e o circuito do Monte Rosa. GR20, Kungsleden e Laugavegur pedem autonomia de comida ou barraca.
Precisa levar barraca para fazer trekking na Europa?
Nas travessias alpinas clássicas, não. Você dorme em refúgio com meia-pensão, que inclui jantar, cama e café da manhã, e a mochila fica em oito a dez quilos. Barraca e fogareiro só entram no GR20, na Córsega, e nas travessias de cabana sem serviço da Islândia e da Lapônia sueca, onde a comida de todos os dias é por sua conta.
Quantos dias leva uma travessia na Europa?
De quatro a quinze dias de caminhada, conforme a travessia. Laugavegur, na Islândia, tem quatro; o Tour du Mont Blanc, dez; a Haute Route, de doze a quatorze; o GR20, quinze. Para calcular férias, some três dias ao número: um para chegar ao ponto de partida, um de folga antes de começar e um para voltar.
Qual a melhor época para trekking na Europa?
Nos Alpes, de meados de junho a meados de setembro, com os colos livres de neve a partir de julho e o começo de setembro como a melhor troca entre tempo bom e trilha vazia. Na Islândia a janela é curta, de julho a meados de setembro. Na Lapônia sueca vai do fim de junho a meados de setembro. A Escócia é a única da lista que funciona fora do verão, de abril a outubro.
Qual travessia europeia é boa para quem nunca fez?
As que têm refúgio servido todos os dias, trilha sem trecho técnico obrigatório e ônibus de fuga no fundo do vale: o Tour du Mont Blanc e a Alta Via 1 são as duas mais indicadas. A primeira dá a volta em uma montanha cruzando três países; a segunda atravessa as Dolomitas de norte a sul, com a melhor rede de refúgios dos Alpes.
Quanto pesa a mochila numa travessia europeia?
De oito a dez quilos numa travessia de refúgio servido, e o que pesa é roupa, água do dia e capa de chuva. Não entra barraca, saco de dormir de montanha, panela nem comida além do almoço de percurso. O saco-lençol é obrigatório em quase todo refúgio alpino. Em travessia de cabana sem serviço, com fogareiro e comida de todos os dias, a mochila vai a quinze quilos ou mais.
O Caminho de Santiago conta como trekking?
É caminhada de vários dias, mas é outra coisa. São estradas de terra e vilarejo, sem colo de montanha e sem desnível de travessia alpina, e o assunto ali é a peregrinação. Quem procura montanha, refúgio e desnível não vai encontrar no Caminho o que encontra numa alta via ou num circuito alpino.